O São Paulo FC tem uma dívida enorme com este torcedor

Na última quarta-feira, 6/5/2015, o São Paulo encarou o Cruzeiro pela partida de ida das oitavas de final do maior torneio de clubes do Mundo, a Libertadores. O Estádio do Morumbi estava APINHADO com mais de 66 mil torcedores. A nova marca de material esportivo estampada pelo São Paulo fez uma jogada de marketing sensacional, na qual os jogadores, ao invés de jogarem camisas para as arquibancadas, faziam exatamente o oposto, recebendo os uniformes de jogo dos próprios que ocupavam o espaço da antiga geral. A festa pareceu completa quando Centurión, el pistolero, mandou uma pedrada de cabeça aos 37’ do 2T fazendo a festa de todos os Tricolores. Correto? Não. Ao menos para um torcedor a festa não foi exatamente assim. E não se trata de um torcedor qualquer, mas sim de Heraldo Hipólito dos Santos, 38 anos, servente de pedreiro.

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Talvez poucos o reconheçam pelo nome, mas Heraldo é o malóqui que há 18 anos pinta um COLOSSAL escudo do São Paulo no peito e assiste a qualquer jogo descamisado, faça o frio polar que fizer. O motivo de orgulho desse torcedor não pode ser outro, senão ostentar sua maior paixão. Lembro-me que há algum tempo o zagueiro Alex Pirulito Silva o presenteou com uma camisa oficial de jogo após vê-lo torcendo, mais uma vez, sem camisa, com o símbolo pintado, em uma noite que garoava e fazia um frio de arrepiar a alma. Ele agradeceu, mas disse que continuaria a ir ao estádio sem camisa, GABANDO-SE da sua mais bela obra de arte – que, registre-se, é muito bem desenhada.

Mas, nesta quarta-feira, a história foi diferente para Heraldo. A Polícia Militar do Estado de São Paulo, segundo matéria da UOL, resolveu barrá-lo na entrada do estádio. Num primeiro momento, a razão seria Heraldo ter pintado um 2º símbolo do SPFC, no rosto, o que dificultaria o reconhecimento facial do torcedor. Heraldo teria lavado o rosto e retornado à catraca de entrada, desta vez só com o símbolo no peito, mesmo assim, foi novamente barrado por estar com desenhos no corpo (como a PM trataria os tatuados, então?). Heraldo colocou uma camisa; não foi suficiente, mais uma vez foi impedido de entrar. Pediu auxílio aos seguranças do clube; nada adiantou. Heraldo teria ficado de fora, com o ingresso na mão, sem pode assistir.

Se for verídica a matéria do UOL, temos o relato de um verdadeiro DESCALABRO. Em tempos de Arenas padrão FIFA, o Morumbi, com suas gigantescas dimensões, parece ser a trincheira perfeita para combater a higienização do futebol moderno. Um estádio padrão “anos 70” pode receber o dobro de gente dessas Arenas assépticas. A própria diretoria do São Paulo já acenou com isso quando nos dois últimos Brasileirões colocou ingressos a preços populares, e, nesta Liberta, ainda não tem cobrado preços EXORBITANTES pelo ingresso – daí que não me parece fazer sentido uma reforma do Morumba para diminuir sua capacidade.

Numa época bizarra em que não raramente os clubes mais populares são justamente aqueles que mais ostentam riqueza e mais caro cobram dos seus torcedores, o SPFC tem a chance de sepultar o ranço elitista que tentam pintar de preto, vermelho e branco: basta que sua Diretoria acene para o lado popular que vem das suas arquibancadas. E também que pague a dívida que agora tem com o folclórico-popular-torcedor sãopaulino Heraldo, dando-lhe um ingresso vitalício para acompanhar o Tricolor, quando, onde e como ELE quiser. As tradições de Fried, Leônidas, Zizinho e tantos outros estariam honradas e o São Paulo daria um passo enorme, da tamanho de sua grandeza. Do tamanho do Morumbi.

O 2º turno das eleições é sobre Futebol

Esta é a eleição mais relacionada ao futebol brasileiro dos últimos tempos, embora pouco se fale sobre isso. A expressão “Fla x Flu eleitoral” para fazer referência ao 2º turno entre Dilma e Aécio tornou-se bastante comum. O maior clássico do futebol brasileiro virou quase uma CATACRESE para disputas renhida e sem possibilidade de acordo. Numa possível INFERÊNCIA direta, o FLA representaria o PT, time do povo, dos mais pobres e o FLU a elite, a aristocracia (PSDB). Atentemos, então, para alguns MEANDROS desta história.

Primeiramente, deixemos de lado a falsa superficialidade que tentam atribuir ao futebol que hoje é reconhecido como um dos fundamentais elementos da identidade nacional brasileira. Da sociabilidade à economia, passando pelas relações pessoais, é impossível ignorar o futebol como um fator decisivo na escolha de seu candidato. “Segundamente”, não podemos nos esquecer do atual ESTADO DA ARTE de futebol brasileiro. Sim, o nosso futebol, legítimo representante do Futebol Arte, atravessa hoje o mais interessante PONTO DE INFLEXÃO de sua história recente. Senão, vejamos rapidamente esse histórico:

Lula, eleito em 2002, pediu e recebeu apoio de gente como Sócrates, Raí, Ana Moser, Magic Paula, Juca Kfouri, Trajano. O seleto grupo produziu um Projeto de Política para o Esporte Nacional, para ser implementado e gerar resultados a médio prazo. No entanto, após algumas ponderações, Lula preferiu não afrontar os interesses do COB e da CBF, escolhendo a via mais fácil da acomodação de interesses; o ex-metalúrgico até mesmo reforçou a posição de figuras nefastas do esporte nacional. Ao trazer para o Brasil a Copa e as Olimpíadas, discursou ao lado daqueles que havia prometido combater.

A barca da CBF navegou razoavelmente tranquila entre 2003 e 2010, mas sofreu MÁS TURBULÊNCIAS quando Dilma, eleita em 2010, chegou ao Planalto. Já em seu primeiro ano de mandato, a presidenta deixou claro que não se IMISCUIRIA com a CBF e com Teixeira, negando-se inclusive a aparecer publicamente com o cartola. O mal-estar gerado com o EX-GENRO de João Havelange confluiu para a queda de Teixeira da presidência da CBF após longos 23 anos, já em 2012. Sua saída, contudo, abriu caminho para a ascensão de seu vice, José Maria Marin, antigo membro da ARENA. E aí, caros eleitores, uma pausa para o raciocínio é necessária: tantos quantos forem os dirigentes que ASCENDAM nesta corrompida estrutura de poder do esporte nacional, todos eles serão representantes desta mesma elite coronelista, patriarcal e semiescravocrata que ainda forma a classe de dirigentes do futebol brasileiro (não raros envolvidos na política). E o mais inquietante é que ao longo de muitas décadas, a classe média não nutriu nenhum tipo de ÓDIO a esses coronéis do esporte; poucos gritaram “corruPTos” a esses senhores; raros foram os casos de “Fora Havelange, e leve sua turma com você”. E os porquês disso são claros: eles SEMPRE foram parceirões dos grandes veículos de comunicação (quando não foram os próprios jornais, rádio e TVs) e receberam uma blindagem toda especial numa relação de simbiose que parasitou o esporte nacional. Portanto, mudar esse cenário somente é possível mediante uma reformulação em termos legais (tanto no esporte como na imprensa), que deve ser aliada à mudança de padrões culturais, evidentemente.

Neste ponto, entram em cena as manifestações de junho de 2013. A revolta iniciada com as pautas populares do transporte público nos legou a fundação do Bom Senso FC (BSFC), verdadeiro sopro de esperança no mar sombrio do futebol nacional. Rapidamente, os jogadores se articularam, buscaram parceiros, meteram as caras e resolveram peitar os interesses obscuros dos cartolas e da principal rede de TV do Brasil em nome de um futuro melhor para o futebol brasileiro. Estão contra o calendário horroroso do Brasileirão, contra salários atrasados, contra dívidas trabalhistas, contratos não cumpridos, reinados de cartolas e muitas outras injustiças.

Para afrontar os poderosos, o BSFC bancou estudos, advogados e especialistas. Apresentou saídas legais, propostas de calendário, normas para as federações e tiveram a PACHORRA de propor critérios para punir maus cartolas por meio de maior rigor na Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte (LRFE). Da outra parte, o que a CBF e a Globo, principal gestora do futebol brasileiro, propuseram? A volta do mata-mata no Brasileirão? O autoritarismo tosco de Dunga? Jogos com início às 22:00h de uma quarta-feira? Ora, já nos esquecemos dos 7×1? Para mim, eles ainda doem e tenho até declinado de convites para tomar uma Erdinger em plena secura do calorão paulista ou comer um joelho de porco na Oktoberfest. Aquele discurso todo de “mudar as estruturas do futebol brasileiro” foi esquecido? Tudo o que ocorreu no futebol ao longo do 2º semestre de 2013, assim como as mobilizações populares, vai servir para reforçar as mesmas bancadas conservadoras que conduziram a situação até o atual estágio?

Voltemos, então, às eleições: Aécio flertou com o BSFC, mas foi rechaçado; o tucano está com os cartolas mineiros – Aécio indicou Zezé Perrela para ser suplente do CLAUDICANTE Itamar Franco, eleito senador por MG em 2010 e morto em junho de 2011; o agora Senador é dirigente do Cruzeiro e dono do helicóptero com 450 kg de PASTA BASE de cocaína apreendido pela PF. Denegado pelo movimento dos atletas, Aécio andou fazendo o meio de campo com Marin, que lhe prometeu apoio. Fala-se até na possibilidade de Ricardo Teixeira voltar à CBF caso Aécio seja eleito! Nessa metáfora do futebol que é a nossa vida, não seria exagero associar Aécio e o PSDB à velha identidade inaugural do Fluminense – time que surge no seio da ilustrada aristocracia carioca e rapidamente encampa um ideal social discriminatório (o Flu ficou notabilizado por querer clarear seus jogadores fazendo uso de pó de arroz). Aos poucos, contudo, ganhou algum apelo e respaldo popular, sem jamais ter se desvencilhado de sua essência elitista. Nos dias de hoje, ambos não se furtam de usar de suas escusas redes de influência no meio jurídico para garantir vitórias a qualquer custo (alô STJD, Barbosão, Gilmar Mendes) e o devido amparo legal.

Da outra parte, Dilma avançou em direção a alguma democratização do futebol brasileiro ao acenar positivamente para o BSFC e peitar Marin. Seguindo a tradição originária de seu partido, a presidenta se dispôs a combater a elite política do futebol, desagradando assim os comparsas da grande imprensa. Idealmente, pode ser comparada a um Flamengo que, como sabemos, foi o clube que despontou por sua forte vinculação aos segmentos mais subalternos da sociedade. As ações afirmativas dos governos do PT promoveram os Leônidas, Domingos, Júniors, Jaymes e Andrades a melhores condições de vida e de inclusão social. Em termos práticos, a presidenta recebeu uma comissão de atletas do BSFC em julho de 2014 e encaminhou suas propostas à Câmara; na ocasião, os governistas tiveram que MANOBRAR o plenário para impedir que a Bancada da Bola aprovasse a LRFE a toque de caixa [dois] de modo a facilitar a vida dos cartolas; a lei ainda está pendente e será aprovada logo APÓS as eleições.

Para além das reconfigurações que Fla e Flu viveram ao longo de suas existências e muito mais que qualquer proselitismo político, eleger Aécio é dar um passo atrás no caminho que avança o futebol brasileiro; é reforçar Marins, Teixeiras, Perrelas, Euricos. Após eras de sóbrio medievalismo nos bastidores da bola, tivemos um fio de esperança nos últimos tempos – e isso não pode retroceder. Se ainda estamos longe de qualquer reconfiguração das estruturas de força nas estranhas do futebol brasileiro, podemos SIM afirmar que com Dilma continuaremos avançando no sentido de derrotar nossos maiores e verdadeiros adversários.

Você iria ao Maracanã ver um clássico por R$ 2,60 ?

Maraca

[sugestão de música para a leitura: Virada, Beth Carvalho]

A pergunta acima pode parecer surreal nos dias de hoje, mas em relação ao salário mínimo brasileiro, esse era o preço cobrado pelo ingresso da arquibancada do Maracanã em 1959, logo após o Brasil ganhar sua primeira Copa do Mundo. A questão é pertinente em tempos de estádios (ou melhor, Arenas) cheirando a tinta fresca no Brasil e com boa parcela de desocupação (vide Maracanã, Mineirão, Mané Garrincha), sobretudo nos valorizados setores próximos ao meio-campo.

A comparação com o preço de outrora fica ainda mais brutal se fizermos um comparativo semelhante em relação ao preço da Geral, mítico setor popular dos estádios no qual se assistia as partidas em pé, no nível do campo (setor extinto por determinação da FIFA): o bilhete sairia por módicos R$ 0,60 – isso  mesmo, 60 centavos de real!. Isso para não entrar no mérito dos ingressos destinados aos militares, ainda mais baratos (isso daria uma tese!).

Diário de Notícias - 25/02/1961 p.8
Diário de Notícias – 25/02/1961 p.8

Embora embasado em dados reais dos preços dos bilhetes e dos valores do salário mínimo em fins da década de 1950, tais números não têm efeitos científicos. Dizemos isso pois os rebuscados cálculos econômicos devem inserir nesta comparação uma infinidade de ‘logaritmos neperianos de base pi’ e outras variáveis mais escabrosas que as cifras gastas nas recentes reformas do ‘Maior do Mundo’; tantos números e incógnitas nos desautorizariam a pensar a questão de tal forma. Entretanto, refletindo de um modo mais pragmático, por que não pensar o preço do ingresso de forma mais simples, mais popular? Afinal, o futebol só é tão popular e congregador (fenômeno social total, segundo os acadêmicos) justamente pela simplicidade de suas regras e por ser facilmente reproduzido/jogado e acompanhado por quem quer que seja, em quaisquer condições que se apresentem.

O que adianta eu trabalhar demais, se o que eu ganho é pouco

No último domingo O Estado de S. Paulo trouxe uma reportagem sobre um tema que há tempos os grupos mobilizados em torno do Futebol e do tão afamado “legado da Copa” vêm discutindo: os preços dos ingressos e o processo de elitização do futebol brasileiro. Na reportagem do OESP, tal e qual nestes grupos, o modelo alemão é contraposto ao inglês e espanhol (estes últimos sendo os modelos seguidos pelo Brasil); enquanto os germânicos, de modo geral, destinam a grande parte dos ingressos para setores populares, atingindo médias altíssimas de ocupação dos estádios e proporcionando um verdadeiro espetáculo por meio de sua torcida – o Borussia Dortmund, vice-campeão europeu, tem ingressos a € 5,50, ou seja, R$ 1,85 segundo os mesmo parâmetros de comparação com o salário mínimo* – o estádios espanhóis e ingleses são infinitamente mais caros, com torcidas menos inflamadas (torcedor-cliente?) e crescentes movimentos contrários à gentrificação do futebol.

E quem tem muito tá querendo mais, e quem não tem tá no sufoco

A absurda, vergonhosa e autoritária concessão do Maracanã ao grupo capitaneado pelo milionário ex-bilionário Eike Batista (importante conhecer a história de Eliezer Batista, pai de Eike e ex-ministro de Minas e Energia, metido com os militares e acusado de surrupiar o conhecimento acumulado de décadas de pesquisa sobre o subsolo brasileiro) faz qualquer ação dos Black Blocs parecer brincadeira de criança (chegarão os Black Blocs às catracas das Arenas?).

Vamos lá rapaziada, tá na hora da virada, vamos dar o troco

Com ingressos a R$ 80, 100, 120 em jogos ordinários do Campeonato Brasileiro, gestores alinhados a um pensamento eugenista, cartolas e autoridades políticas envolvidas numa verdadeira vandalização do patrimônio nacional (material como o Maraca e imaterial como o futebol) os contragolpes já começam a ocorrer em larga escala a ponto de nos questionarmos se ainda há tempo para atenuar uma questão tão pungente. A turma que agora veio cobrar – torcedores, manifestantes, despejados, alijados do processo – não vai se contentar com pequenas concessões; o empate não parece ser mais um bom resultado e já está na hora da virada.

*A Alemanha não dispõe de uma legislação que estabeleça um salário mínimo geral; no setor da construção civil, rendimentos mensais da ordem de € 2000 são comuns.

A camisa azul do Corínthians, a sanha de Havelange e um pouquinho de história do futebol.

Na última quinta-feira o Corínthians apresentou ao público sua nova terceira camisa, para a temporada 2013-2014. A exemplo de outras terceiras camisas de outros clubes, a cor escolhida aparentemente não guarda relações com as tradicionais cores do clube. Dessa vez, a escolha do Corínthians pela cor azul, segundo a explicação oficial, deveu-se a um jogo realizado pela Seleção Brasileira em 1965, no qual o escrete nacional foi representado pelos atletas corinthianos; na ocasião, a seleção brasileira entrou em campo na Inglaterra, contra o Arsenal, trajando seu segundo uniforme (resultado final 2×0 Arsenal).

Entretanto, o tal amistoso de 1965 é um episódio na história do futebol brasileiro que, visto com um pouco mais de atenção, é revelador de alguns detalhes ainda obscuros em torno de nossa seleção. Longe de querer atentar contra a camisa alternativa do “Timão”, o que se pretende aqui é levantar algumas questões pertinentes em relação ao trato dado à história do futebol e aos usos que são feitos dessas apropriações um tanto genéricas desta desacreditada área do conhecimento.

Contextualizando: A caminho do tricampeonato mundial

Em 16 de novembro de 1965, data do amistoso Arsenal x Brasil, a menos de um ano da Copa de 1966 (na Inglaterra), o contexto mundial em torno do futebol gravitava, em absoluto, em torno de um só jogador: Pelé. Não é exagero dizer isso. O jovem de então 25 anos, com mais de 750 gols em pouco mais de 600 jogos, com o Brasil era então bicampeão do mundo consecutivamente (Pelé aos 17 e aos 21 anos), o Santos FC tinha uma enorme projeção internacional (Bicampeão em 1962-63, tendo se “apresentado” em todas as partes do planeta), e o grande cartaz de qualquer jogo da seleção ou do time santista era sempre Pelé. Vale lembrar também que alguns anos depois surgiria a mítica história de que uma Guerra foi paralisada para ver Pelé jogar.

Naquele 1965, a CBD havia aceitado o convite da FA (Football Association), entidade máxima do futebol inglês, para um amistoso entre Brasil e Arsenal, que seria disputado, dentre outros interesses, numa jogada que aproximava o futebol e a realeza britânica. De um lado, o jogo que no fundo opunha Brasil e Inglaterra (à época era muito comum amistosos entre clubes e seleções) serviria como parte dos festejos em homenagem ao Príncipe Charles; de outro, o inglês Stanley Rous, então presidente da FIFA, oferecia à realeza o melhor time e o melhor jogador do mundo, em troca de maior respaldo institucional e do desejado título nobiliárquico de “Sir”, que conquistaria pouco tempo depois.

Mas, o jogo de interesses entre futebol e política não se esgotava nessa primeira dimensão com a Realeza Britânica. Nos bastidores, já há algum tempo, o presidente da CBD desde 1958, João Havelange, vinha trabalhando para alcançar o posto de mandatário máximo da FIFA. Já na década de 60, às custas de um sem número de amistosos da Seleção Brasileira e também dos times nacionais, Havelange já havia conquistado a simpatia das entidades de futebol não-europeias, sobretudo na África, países Árabes e América. Assim, obviamente, Havelange entrava em rota de colisão com Rous.

Corínthians, Brasil e Copa de 1966

Seria demasiado pretensioso tentar reconstituir os argumentos que acarretaram na decisão de enviar a equipe corinthiana à Londres para representar o Brasil. Uma espécie de compensação em relação ao arquirrival Palmeiras – que em 7 de setembro do mesmo representou a Seleção Nacional na inauguração do Mineirão – não pode ser descartada. Também a dificuldade em selecionar jogadores de diferentes equipes e enviá-los a outro continente certamente teve seu peso (o período em questão é marcado por um acirramento de interesses entre 3 partes: jogadores, clubes e CBD; cada um na defesa de seus propósitos).

No entanto, com absoluta certeza, o envio do Corínthians à Inglaterra, equipe à época sem grande projeção internacional e sem jogadores “de cartaz” (Rivellino tinha 19 anos e Dino Sani estava em fim de carreira), despertou a ira dos cartolas ingleses. Armando Nogueira, no Jornal do Brasil de 09/11/1965 chega a mencionar que, até pouco tempo antes do jogo, os organizadores foram obrigados a devolver as libras aos ingleses que haviam comprado os tickets acreditando na propaganda que anunciava a presença de Pelé em campo.

Além disso, o tensionado rompimento entre Havelange e Rous custou caro ao próprio futebol brasileiro. Já em 1965 a crônica brasileira anunciava – com informações diretas da cobertura da Inglaterra – que ter enviado o Corínthians e não ter mandado Pelé para o amistoso contra o Arsenal custaria caro ao Brasil na Copa do ano seguinte. Na Copa de 1966, mesmo entrando o Brasil como franco favorito e tendo inclusive a CBD enviado uma missão especial de reconhecimento à Inglaterra para preparar as acomodações da seleção, o Brasil foi remanejado para uma sub-sede que não oferecia boas condições de treinamento (campo ruim e acomodações insuficientes); enfrentou uma arbitragem escancaradamente desfavorável, e ainda viu estimulado o desprestígio internacional do futebol brasileiro frente aos europeus. Resultado: o Brasil amargou uma desclassificação logo na primeira fase do torneio (1vitória e 2 derrotas).

Anos depois, o Brasil voltaria ao topo do futebol mundial com a formidável campanha do tri, em 70. Havelange sentaria na cadeira mais alta do futebol mundial em 74, apoiado, sobretudo, pelos países não europeus, e iniciaria um longo reinado à frente da FIFA até 1998. Em 2008, numa tentativa de pragmatizar o resultado do pífio desempenho na Copa de 66, o próprio Havelange denunciou um suposto esquema para prejudicar o selecionado brasileiro:

“Em 66, o Brasil tinha praticamente o mesmo time de 62. Quem era o presidente da Fifa? Sir Stanley Rous, inglês. Onde era a Copa? Inglaterra. Nos meus três jogos, com Portugal, Hungria e Bulgária, tinham 3 árbitros e 6 bandeirinhas. Sete eram ingleses e dois alemães. Acha que foi para quê? Acabar com meu time. Acabaram. Pelé foi machucado.”

Outro fator frequentemente apontado como causa para a derrota de 1966 teria sido o mau planejamento dos treinamentos e convocação, que saturou de jogadores com a chamada de 44 nomes. Entretanto, numa rápida olhada, vemos em que 1958 foram convocados 35 jogadores, sendo que o planejamento da Comissão Técnica era convocar 40; em 1962, 41 foram convocados para a primeira fase de treinos. Assim, não chega a surpreender que em 1966 tenham sido convocados 44. O que surpreende, sim, é ter sido essa a principal causa apontada como razão do fracasso brasileiro.

 Marketing e História

A estratégia da 3ª camisa para os times de futebol é mais uma das recentes jogadas de marketing que tomaram o futebol nos últimos tempos. Todos os anos, mesmo com a troca dos modelos do 1º e 2º uniforme, um 3º modelo é lançado no mercado na tentativa de atrair compradores e ampliar as receitas dos clubes. As opções por cores e desenhos alheios às tradições clubísticas encontram sempre alguma escusa simbólica ou história; nestas ocasiões, algum discurso é prontamente evocado como justificativa para a adoção de matizes cromáticas diferentes daquelas às quais os torcedores estão acostumados. Assim como são raras as exceções a esse modelo de marketing, são também abundantes os exemplos de sucesso dessa estratégia.

Quase sempre os clubes se utilizam de algum evento passado para dar uma mínima sustentação à escolha deste ou daquele modelo de terceira camisa, desta ou daquela cor inserida em meio àquelas tradicionais do clube. Assim, o exemplo da camisa azul do Corínthians serve como disparador para melhor pensarmos a história do futebol brasileiro e também para refletirmos sobre como a História pode ser instrumentalizada para justificar um determinado discurso. Mais do que simplesmente ter representado o Brasil, o episódio do jogo contra o Arsenal, em 1965, serviu para um jogo político bastante rasteiro que não evoca tanto orgulho como parece à primeira vista.

As manifestações e o legado da Copa

A massacrante vitória da seleção brasileira sobre a aclamada e reverenciada campeã mundial e bicampeã europeia, na final da Copa das Confederações, até poderia passar desapercebida[1] não fossem alguns componentes outrora ausentes ou perdidos no cenário do futebol brasileiro. Seguindo a sugestão do placar do jogo, vamos ficar somente com 3 pontos, que obviamente poderiam ser levantadas em maior número, assim como o placar-chocolate imposto aos espanhóis: 1) as recentes manifestações que tomaram as ruas do Brasil, 2) a surrada máxima do futebol como ópio do povo e 3) as disputas pela atribuição de significados aos eventos históricos futebolísticos.

1×0, Gol de Fred, deitado dentro da pequena área.

Para abrir o marcador, logo de cara, é preciso atentar para a relação que se estabeleceu entre a seleção brasileira e as manifestações que assumiram proporções inéditas no Brasil nos últimos dias. Há aqui, também, uma amplitude de possíveis conexões, tais como as mobilizações já organizadas de longa data[2] e que no calor e no calendário da Copa das Confederações alcançaram maior visibilidade e amplitude. Entretanto, é para uma espécie de ufanismo patriótico que vale atentar; um desfile-ostentação de signos nacionais, muito comuns em época de Copa do Mundo, que de modo rasteiro e oportunista – tal qual o camisa 9 da seleção no 1º gol do jogo – passou a ocupar as ruas durante as mobilizações/manifestações Brasil afora. Bandeiras brasileiras, rostos pintados de guache atóxico verde-amarelo e o hino nacional sendo insistentemente entoado dispersaram-se em meio a máscaras de “V for Vendetta” e ganharam a simpatia da grande mídia. Grande mídia, vale registrar, que assumiu um farsesco e clamoroso “vira-casaca” e, como num rápido “dois-toques”, viu seus próprios jornalistas envolvidos pela violência policial e, ato contínuo, o grande mobilizar das massas igualmente reprimida pela polícia; como resposta, rapidamente substituiu “baderneiros” por “manifestantes”, deixou em impedimento a ação de “uma minoria de vândalos” e, no afã de virar o jogo das pautas de anos de trabalho das organizações sociais, elidiu as propostas objetivas e aplaudiu os gritos disformes “contra a corrupção”, “sem partido”, “pelo Brasil” etc. Jogadores e comissão técnica brasileira foram instigados a opinar sobre as manifestações e, como não poderia deixar de ser, apoiaram os protestos.

A execução do hino brasileiro antes dos jogos condensou essa conjuminância um tanto bisonha de fatores. As competições internacionais de futebol, para emular e excitar os ânimos dos nacionais impõem a execução dos hinos dos países representados em campo; por puro “time is money” e para poupar o público de chatice maior, os hinos são executados sem letra e editados de modo a cabem em pouco mais de 1 minuto. Entretanto, já no jogo Brasil x México, na 1ª fase do torneio, e depois acalorado na semi-final contra o Uruguai e, ainda mais, fazendo entornar o caldo na final do Maracanã os torcedores de Fortaleza, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, junto aos 11 jogadores brasileiros, cantaram com fúria (sem trocadilhos com a seleção espanhola) as rebuscadas e semi-enigmáticas rimas de Osório Duque Estrada, mesmo após o fim do rápido playback. A essa demonstração de crença numa abstração nacional – pretensamente alçada a condição de pureza ideológica – o jornal espanhol “Marca” assinalou como fundamental para o gol inicial de Fred:  “Brasil comenzó la goleada con su himno”. Não subjuguemos, ganhar no futebol está entre as coisas mais importantes para a identidade nacional brasileira.

Negligenciado durante muito tempo pela esquerda e ainda renegado a manifestação pouco séria, o futebol – e mais particularmente a seleção brasileira – e também o poder de inflamação do hino nacional (associados ou não) são sim importantíssimos campos de disputa e podem servir para um melhor entendimento das questões que estão postas.

2×0, Gol de Neymar, num arremate forte e certeiro, no momento mais propenso.

“A equipe jogou muito além do esperado e fizemos muita gente feliz.”

Volta e meia a questão do futebol como ópio do povo reaparece, e desta vez não foi diferente. Com a vitória brasileira na final da Copa das Confederações não demorou para que questões do tipo “Com a vitória brasileira as manifestações irão acabar?” surgissem. Evidentemente que estando no centro das atenções mundiais do futebol e recebendo jornalistas e turistas de várias partes do mundo as manifestações no Brasil ganharam grande notoriedade em todo o planeta. Protestos marcados nas praças e horários dos jogos mais importantes escancararam a subserviência imposta pela FIFA e a permissividade cruel dos Estados que desejam abrigar suas competições, obrigados que são a extrapolar o uso de armas (não usaremos o eufemismo “não letais” por respeito à espécie humana) e de seu material bélico “humano”. A reação da população brasileira à imposição de um Estado de sítio supranacional pela entidade máxima do futebol mundial foi elogiada até mesmo pelos riquinhos europeus da Alemanha, que receberam a FIFA no mundial de 2006. A ocupação dos espaços e a marcação cerrada dos comandados de Felipão na histórica final contra os espanhóis só encontrou paralelos nos manifestantes que por meio de suas ações escancararam para todo o mundo as remoções higienistas, os incêndios premeditados, a intransigência especulativa, a elitização do esporte mais operário da modernidade, o conluio fraudulento entre as entidades do futebol mundial e os grandes grupos midiáticos, o mau-caratismo da classe dos dirigentes esportivos e as grandes corporações que os financiam, e tantos outros “poréns” (Blatters, COLs, Havelanges, Marins,Del Neros etcaterva) que parasitam este fenômeno social total e maravilhoso que é o futebol.

Se é válido evocar a máxima “ópio do povo”, por que não questionar o próprio uso desta já batida expressão? Por acaso não sabe o povo o que faz, de modo a ser sempre enganado/sedado por obra de alguém? Não é já clarividente – em meio à medicalização social pós moderna – que a diferença entre o veneno e o remédio é só a dose de sua administração? Acaso não há prazer no ópio ou, genericamente, em fazer uso de alguma substância que altere a percepção de mundo? Mais a fundo, quase que numa viagem digressiva, não estaria o consumo destas substâncias, em sua maior parte, associado a uma busca por uma condição mais alegre, livre e feliz de vida? Ora, já bem frisou César Menotti, técnico da seleção Argentina campeã da Copa de 78 – aquela tida por alguns como a mais manipulada pelos homens da caserna: “el fútbol fue siempre una hermosa excusa para ser feliz”. No Brasil também não faltam exemplos de que o futebol transcende os significados rasos que lhe atribuem os pragmáticos de plantão: a seleção de 70, militarizada pelo “pra frente  Brasil”, punha em prática exercícios de liberdade que alimentaram fundamentais movimentos no futebol brasileiro, tais como a resistência de Afonsinho e a Socrática Democracia Corinthiana. É então o futebol o ópio? Sim!, obrigado, por que não seria? É nosso pão e circo? “Diversão é solução sim”, e se for no circo do futebol, que seja com Garrincha e sua trupe. Afinal, como disse Eduardo Galeano, Garrincha “foi o homem que deu mais alegria em toda a história do futebol. Quando ele estava lá, o campo era um picadeiro de circo; a bola, um bicho amestrado; a partida, um convite à festa”.

3×0, Fred bate colocadinho, sem defesa para o adversário.

O que está em jogo, então, e que dá números finais a este placar, é a busca contínua pela significação dos eventos, pela seleção fatos (sempre pretensamente apresentados como portadores de alguma neutralidade), pela atribuição de sentido às vivências sociais. Tanto no futebol como nas manifestações de rua. Nos últimos dias alguns valores perderam status e tantos outros passaram a ser compartilhados no cenário de mobilizações Brasil afora. Não seria temerário dizer que o brasileiro deixou pra trás a pecha de ser submisso (ditado este moldado e imposto por meio de muita repressão ao longo de nossa história), de não se mobilizar pela busca de seus anseios (de qual setores sociais estavam falando?) e, também, de não mais se empolgar com a seleção brasileira. A 1 ano da Copa do Mundo, evento bem mais grandioso e capaz de condensar ainda mais as atenções do mundo, a solução dos conflitos que estão aí postos e que foram retro-alimentados pela preparação do Brasil para abrigar a Copa de 2014 – seja em relação à política (que em todas as esferas elege e financia obscuramente  as suas prioridades), ao policiamento (que tal e qual o futebol passa a ser questionado em termos de sua militarização) e à estruturação do futebol brasileiro (reduto sinistro do coronelismo de cartola) – passa, se ainda houver tempo, pelo início imediato da reparação de injustiças históricas e pela atenção a estas palavras que há anos ecoam das ruas e das arquibancadas do Brasil.


[1] Quem se lembra das finais da ConfCup Brasil 6×0 Austrália, em 1997? e da mais recente Brasil 3×2 EUA, em 2009?)

[2] Basta lembrar as mobilizações contrárias à Copa do Mundo, contra as remoções forçadas para a construção ou acesso aos estádios, contra o emprego de verbas públicas no financiamento de tais obras ou mesmo por mais transparência no esporte brasileiro e particularmente na gestora do futebol nacional, a CBF – esta também em recente processo de mudança, fruto das pressões advindas de diversos setores da sociedade.

A final da Copa Sulamericana, o Morumbi e o estado da arte do futebol brasileiro

O que se viu na final da Copa Sulamericana, no Morumbi, dia 12/12/12, como o argentino Tigre fugindo de campo e o São Paulo FC declarado campeão, foi um retrato um tanto desfocado um tanto fidedigno do que se pode entender da realidade brasileira a partir do futebol: uma mescla desse nosso passado pré-moderno – que tanto queremos abandonar – com alguns requintes de uma valorizada e galopante pós-modernidade. Conjunção entre o que há de mais avançado em vendas de ingressos pela internet e problemas basilares de comunicação, planejamento e acesso ao site que comercializou os tickets. Obras de metrô, monotrilho e promessas de corredores de ônibus e trânsito infernal em todas as vias de acesso ao estádio. Um estádio ao mesmo tempo considerado obsoleto, vetado pela FIFA, com pontos cegos e vendas de ingressos que supera o número lugares disponíveis e ainda assim repleto de reformas elitizadoras e “pulsado” pela sua torcida. Dentro de campo, o futebol do mais caro jogador brasileiro da história, vestindo a camisa do clube tido como exemplo de planejamento e investimentos “extra-campo” em meio a catimbas, provocações e táticas anti. Por fim, algo praticamente inimaginável ocorreu em pleno futebol do século XXI no país sede da próxima Copa: o adversário estrangeiro, visitante, não voltou do intervalo e o SPFC comemorou o título de Campeão Sulamericano sem que o segundo tempo fosse disputado.

Sem recuar muito no tempo, vamos analisar a coisa desde um pouco antes do jogo de domingo, última rodada do Campeonato Brasileiro de 2012. Sim!, abandonemos o jogo de ida na Bombonera, Luís Fabiano ou a pancadaria deliberada do Tigre. Embora a festa promovida pela torcida tricolor no Morumbi tenha sido bastante bela, o SPFC deu um triplo golpe em seus torcedores antes mesmo do jogo: primeiro convocou a massa a comparecer ao Pacaembu na última rodada do Brasileirão de 2012 tentando [sem sucesso] desbancar o rival Corinthians na média de público no campeonato. Depois, tendo relacionado seus jogadores titulares para o jogo, entrou em campo com os reservas, – a vitória sobre os rivais amenizou esse incômodo. Por último, o início da venda (somente pela internet) dos ingressos para a final da Sulamericana começou poucos minutos após o encerramento do jogo de domingo – o que dificultou muito para o torcedor que foi ao Pacaembu comprar o seu ingresso, que se esgotaram em poucas horas. A diretoria do SPFC ao mesmo tempo em que oferece um serviço que pode acabar com as filas e cambistas – reclamações de priscas eras – não privilegia o torcedor que acompanhou o time em mais jogos da temporada e não planeja corretamente a venda. O site da TotalAcesso, atual parceira são-paulina na venda eletrônica de ingressos, apresentou problemas de toda ordem: caia, não logava, os setores do estádio não abriam as opções de compra, não havia informações que orientassem os torcedores e na maior parte do tempo não vendeu meias-entradas. Além disso, a TotalAcesso, que só recentemente entrou no mercado nacional (tomando o lugar da IngressoFácil e da FutebolCard, que já foram parceiros do São Paulo e racharam com a diretoria) não ofereceu qualquer satisfação ao torcedor. Muito embora não se possa fazer acusações levianas, particularmente, sempre tive a convicta impressão (vou com frequência ao Morumbi de 2002 pra cá) que em jogos decisivos são vendidos mais ingressos que o número oficialmente comportado pelas arquibancadas. Já assisti jogos no Morumbi em todos os setores do estádio e sempre que há lotação – ou algo perto disso – torcedores ficam amontoados em áreas próximas às grades, escadas, túneis de acesso e às vezes duas ou até 3 fileiras de torcedores por degrau, sem que haja espaço para acomodação, e na final de quarta-feira isso se repetiu mais uma vez. Então, o cálculo é simples: se determinado setor tem capacidade para 8 mil pessoas (a medição se dá em razão do número de assentos) e na hora do jogo não há espaço para todos que compraram entradas para aquele setor assistirem ao jogo sentados, a conta não está fechando, e alguma grana deve estar sobrando.

confusao-saopaulo_tigres_reuAlém disso, o acesso ao estádio/bairro do Morumbi sempre foi uma terrível dor de cabeça não só para a maioria dos são-paulinos. Como é bem sabido, bairros nobres – como o Morumbi – não foram planejados para terem vias fáceis de acesso; tampouco há linhas suficientes de transporte público que interconectem os bairros afastados do centro. Assim, chegar ao Morumbi e sair dele, ainda mais no meio de semana, é uma empreitada não muito recomendada, sobretudo, para quem depende de transporte público. Os ônibus com frequência enfrentam trânsito no horário de chegada ao jogo e escassam na hora da volta para a casa. Se você não está naquela faixa de idade que topa qualquer coisa por uma aventura, é bom pensar duas vezes antes sair de casa rumo ao estádio. Ainda, as obras do metrô e do monotrilho, se podem aventar alguma espécie de solução [parcial], já vem acompanhada de uma série de retrações, seja por seu adiamento ou a bizarra proposta de fechamento das estações mais próximas ao estádio em dias de jogo. Isso para não evocar os inúmeros problemas daqueles que vão ao estádio de carro (deixo essa crítica para os nossos comentaristas da grande mídia). Ainda assim, a massa aflui para o estádio invariavelmente em ritmo de festa, esparramando o jogo por onde passa.

Dentro do estádio do Morumbi, cada setor tem o seu charme, mas apresenta também sua carta de problemas: o anel superior, mesmo mais distante do campo, tem uma visão completa do espetáculo e recebe a maioria dos torcedores – que esgotam seus ingressos sempre antes. É o mais enfeitado (faixas, bandeiras) que mais coreografa, canta e grita – embora essas não sejam as principais virtudes dos são-paulinos. Entretanto, a “bancada” peca por problemas de estrutura, como banheiros (sempre zuados e insuficientes), acesso (a revista policial é demorada e com frequência atrasa os torcedores), escoamento pós jogo. Nas numeradas, setor tradicionalmente mais caro por apresentar mais conforto, além dos pontos cegos próximos às colunas às zonas de privilégio absoluto (camarotes, áreas VIPS) há o pior de todos os problemas, que atende pela gritaria do “senta!” evocada dos torcedores que gostam de mais acomodação. Uma inclinação mais favoráveis e assentos retráteis resolveriam facilmente esse problema. A antiga geral – o setor antes mais popular e barato por dispor daquele que era considerado o pior ponto de vista do estádio, na altura do campo – foi proibida pela FIFA e vem passando por constantemente por reformas que sufocaram o mais folclórico setor torcedor. Boa parte já se transformou em camarote, restaurante, bar e setores mais caros que a numerada (isso vale para muitos estádios nacionais). A compensação por uma visão menos privilegiada é dada por enormes telas de LED em alta definição e tratamento digno dos melhores bitrôs; ganha-se também pela proximidade do jogo e do calor da disputa. A lógica de cota social da geral foi subvertida e o destratado lugar do “geraldino” foi transformado num espaço para o ostentador consumidor de classe distinta. Por fim, mais uma vez, vale dizer que a torcida do SPFC vem enchendo o estádio com mais frequência e a final da Sulamericana, recorde de público do ano em competições organizadas pela Conmebol, levanta ainda mais a média de torcedores são-paulinos no estádio e combate alguns estigmas em relação à assiduidade torcedora são-paulina (torcedor de finais), principalmente se considerarmos que a percentagem de tricolores é menor que a de outros times nacionais e que boa parte de sua média vem do campeonato nacional, que não tem os famigerados mata-matas.

lucassanguePor último, o jogo, ou parte dele. O São Paulo praticamente dominou todas as ações. Do início ao fim do único tempo, uma só bola foi chutada ao gol de Rogério, e um verdadeiro traque – sem força e sem perigo. A ausência de Luís Fabiano não foi determinante e os volantes tricolores, embora não sejam bons armadores, chegavam ao ataque com tranquilidade. Lucas, em noite de despedida, deitou e rolou abriu o placar, armou a jogada do segundo gol, apanhou, provocou, chamou a responsabilidade. O Tigre, que por seus méritos chegou à decisão, demonstrou que não tinha forças nem dignidade de ocupar tal espaço e não será surpresa se for desclassificado e sequer coroado com o vice-campeonato. O episódio do refugo argentino é um capítulo a parte.
Os jornalistas insistem em querer buscar a verdade dos fatos e apurar o que realmente ocorreu. Será que eles creem mesmo nisso? Mil versões irão aparecer; fotos de machucados, vídeos de circuito interno, imagens de celulares, depoimentos… A imprensa argentina, demasiadamente bairrista, fala em vexame, vergonha, armação, perseguição. Pior que isso, somente os próprios brasileiros repercutindo essas versões! A cegueira clubística de alguns, baseada em conjecturas, endossa o coro dos covardes. Falou-se em “conquista manchada” e até mesmo em apoio da Polícia Militar ao truculento SPFC. O futebol só é um fenômeno mundial pois congrega uma ampla gama de elementos modernos e tradicionais de modo fácil, inteligível. Seguramente não é o único, mas dos esportes modernos o futebol é aquele possibilita aos seus admiradores/praticantes, mesmo que haja um desequilíbrio brutal de forças, a possibilidade da vitória em qualquer das condições, já que sempre parte de uma situação de igualdade (o jogo sempre começa 0x0) para chegar a um resultado final. O SPFC estava dando um chocolate no Tigre, mas… e se sai um golzinho argentino nos primeiros minutos do 2º tempo?! O que ocorreria? Impossível saber.

A organização sulamericana tenta emular o modelo contemporâneo da UEFA (aqui Libertadores e Sulamericana, lá Liga dos Campeões e Copa UEFA) e promover cruzamento entre seus campeões locais e intercontinentais. Se esse é o caso, então, nos resta reconhecer aquilo que nos difere dos modelos centrais (europeus) e reconhecer nisso nossa força. Se os campeonatos sulamericanos impõe a lógica do choque entre suas escolas e culturas futebolísticas, seja pela catimba, altitude, arbitragem, pressão de torcida ou mesmo pela violência dentro de campo – e vejam não estou reivindicando mais organização nem poder à Conmebol – isso é sadio, e a forma como lidamos com esses meandros reflete o “estado da arte” de nosso futebol. O Tigre, com medo de tomar uma goleada história, achou que poderia brochar a festa São Paulina fugindo de campo: evocou um passado até mesmo saudoso onde isso ocorria com mais frequência (aqui, ali e acolá), inclusive com a invasão de campo de torcedores ensandecidos, êxtase arquibancadas e alegria torcedora. Pois foi isso que se viu na noite de 12/12/12.

Fair Play, malandragem e o gol de Luíz Adriano

O Fair Play virou um signo absoluto do que a pasmaceira social considera por bom-mocismo. Com um amplo e disforme conceito de “jogo limpo”, “respeito às regras, aos árbitros, adversários e torcedores”, e outros atributos de bom comportamento, desde a década de 90 o fair play vem sendo insistentemente estimado no futebol (em 1987 a FIFA inventou o prêmio Fair Play, que já foi entregue inclusive ao jogador Di Canio, famoso por comemorar gols com a saudação fascista) e seus valores extrapolaram os limites do esporte, ganhando emprego até mesmo nas relações pessoais e de trabalho. Dentro do campo de jogo, desrespeitar os princípios do fair play ganhou sentido nefasto e uma condenação quase inquestionável paira sobre aqueles que não seguem seus princípios.

Esse assunto é trazido ao debate após o gol marcado pelo brasileiro Luíz Adriano, que atua pela equipe ucraniana Shakhtar Donetsk, pela 5ª rodada da Liga dos Campeões da UEFA de 2012 (Nordsjaelland 2 x 5 ShakhtarDonetsk). Em síntese, o brasileiro teria “levado vantagem” em um lance no qual, por fair play, a bola estava sendo devolvida por um jogador do Shakhtar aos adversários do Nordsjaelland, da Dinamarca, uma vez que o jogo foi interrompido quando a bola estava em posse do time dinamarquês para que fosse providenciado atendimento médico a um jogador do próprio Nordsjaelland.

Como pode ser notado pelo vídeo logo abaixo, com o jogador nº 11 do Nordsjaelland (time de vermelho) caído próximo ao círculo central, é o próprio árbitro quem toma a ação de parar o jogo (mesmo com a bola estando em poder do time da Dinamarca, do que se deduz que os companheiros de clube poderiam, por iniciativa própria, jogar a bola pela linha lateral para que o atendimento ao jogador fosse realizado, mas não o fizeram) e depois o reinicia com um “bola ao chão”, procedimento que recoloca a bola em jogo para ser disputada por um jogador de cada time. Nesse ponto, qualquer jogador do Nordsjaelland abre mão de participar dessa disputa, crentes que os representantes ucranianos, por fair play, devolveriam a bola ao seu clube. Quando a bola é despretensiosamente chutada pra frente por um jogador do Shakhtar (time de branco) o beque e depois o goleiro do Nordsjaelland fazem menção de que participarão do lance, mas vendo que não terão como parar o rápido avante brasileiro, vão diminuindo seus impulsos e veem Luíz Adriano fazer o gol.

Agora, o interessante disso tudo é atentar para o tempo dos 0:27 segundos do vídeo. Pouco antes, o jogador do Nordsjaelland parecia ter sofrido uma lesão seríssima no rosto, virtualmente fruto de uma agressão do mesmo Luíz Adriano (poderia gerar uma expulsão?). Mas, vendo o lance com mais atenção, fica evidente que se tratou de uma simulação (a suposta pancada foi nos olhos ou no queixo?) após um esbarrãozinho propositalmente ocasionado; àquela altura o Nordsjaelland vencia o jogo por 1×0 e alimentava alguma esperança de classificação para as oitavas da Liga ou ao menos para a Copa UEFA.

O magrelo Luíz Adriano, brasileiro, negro, foi malhado pela crítica internacional após fazer o gol e será até mesmo julgado pela UEFA com risco de receber sabe-se lá qual pena arbitrária. E o que ocorrerá com o alvo camisa 11 do Nordsjaelland? Em outras ocasiões, outros brasileiros já foram perseguidos por condutas semelhantes. Não se quer aqui vitimizar os jogadores brasileiros e tachá-los como perseguidos, mas é notável que nessa balança da justiça desportiva [internacional] os pesos e medidas são diferentes conforme a ocasião e os atores envolvidos.

Além disso, como estamos em tempos de colocar em xeque a afamada malandragem brasileira (principalmente dos jogadores que simulam faltas e pênaltis), vale a reflexão em relação ao sentido histórico dessas pequenas burlas às regras sociais. Francamente, estamos falando de algumas estratégias de sobrevivência que são frutos das imensas hostilidades criadas pelas próprias instituições que deveriam ordenar justa e socialmente os homens, mas que historicamente cumpriram e cumprem, sobretudo, um papel perverso de garantir a manutenção de determinados privilégios (geralmente econômicos). Evidentemente que no futebol a malandragem ganhou seus contornos próprios, mas, tal qual fora do mundo da bola, condená-la sem um olhar mais ampliado e atento a outros fatores sórdidos envolvidos parece incorrer num grande risco.

Querer, como mais recentemente se tem feito, moralizar o futebol – esse fruto do massacrante processo civilizador moderno – seja por leis, regras ou pelos princípios do fair play, voltando-se para alguns jogadores, torcedores, agremiações e deixando de lado o verdadeiro mar de lama no qual nadam as Federações, Confederações, patrocinadores, cartolas, lobistas, árbitros, et-caterva, só pode ser o sonho dourado de quem simpatiza com a perpetuação das desigualdades e crê na ilusão da existência de um futebol pasteurizado, sem catimba, sem malandragem, sem pressão dos torcedores, talvez à moda dos antigos bem nascidos sportsmen, para que o futebol nunca deixaria de ser uma prazerosa atividade destinadas aos amadores do vigor atlético.

Anti Fair Play Adriano in Denmark por DynamoKiev71

P.S.: Vale lembrar Rivaldo, que na final da Copa de 1998 tomou um esporro de Edmundo por jogar a bola pra lateral para que um jogador francês fosse atendido numa suposta contusão, enquanto o Brasil perdia por 2×0. Quatro anos depois, o mesmo Rivaldo cavou uma expulsão do jogador turco na duríssima partida de estreia, vencida pelo Brasil por 2×1, no início da campanha pelo Penta.