O Super-Clássico das Américas, a Copa Roca e os militares no futebol

Repórter da Globo: “- E a consequência de se marcar o jogo para uma cidade que de repente não tem uma estrutura muito grande?
Andrés Sanchez: “- As vezes o país vai pro lado político e infelizmente acontece isso.”

A vontade que me toma é tentar escrever um belo texto sobre o jogo de ontem, Argentina 0x0 Brasil, pelo “Super-clássico das Américas”. Um texto que relatasse os belos lances do jogo, começaria pelos hinos nacionais (estas belas amostras de valorização e identificação dos estados nacionais), que foram entoados ao vivo, inclusive com um cantante portenho interpretando o hino nacional brasileiro, passaria depois pelos jogadores correndo atrás da bola – alguns feitos de bobinhos – discorreria as belas e rápidas trocas de passes, as triangulações perfeitas, as embaixadinhas e lances de efeito, o protagonismo dos goleiros e dos árbitros (à moda do Campeonato Brasileiro). O texto poderia finalizar com a alegria de Mano Menezes ou com frases de efeito, aludindo à falta de brilho dos sombrios selecionados ou qualquer coisas desse gênero. Entretanto, um aspecto em torno desse jogo e que, se não chega a ser uma exclusividade é bastante representativo do futebol nacional atual, diz respeito às práticas um tanto militarizadas que revestem a organização do esporte preferido dos brasileiros – e que também representa bem o que ocorre com o futebol argentino. E é isso que vale ser trazido para o debate.

Este “Super-Clássico das Américas” nada mais é que uma reedição da antiga “Copa Roca”, um torneio que existiu entre 1914 e 1976, envolvendo somente essas duas seleções. Antigamente, esses torneios (“copa” é uma modalidade de torneio), envolvendo duas, três seleções, eram bastante comuns. Pois bem, a “Copa Roca” recebeu esse nome em homenagem a Julio Argentino Roca, tenente-general, duas vezes presidente da Argentina recém republicana (1880-1886 e 1898-1904) e representante de um modelo de governo daquilo que chamamos por “processo civilizador”, conceito que explica muito dos regrados esportes modernos. Numa boa medida, nestas plagas, estamos falando de urbanidade, republicanismo, economia agrícola ou de pecuária exportadora, modelo de transporte (ferroviário) para distâncias até então inimagináveis em curto tempo, investimentos públicos em escolas e, obviamente, no exército (como separar uma instituição da outra?) e outras mais. Em síntese, reinvenção do tempo, do espaço e das regras sociais. É claro que nesta baciada tentaram “equacionar” uma série de questões do recente passado colonial, como a dizimação indígenas, a negação dos componentes humanos e sociais africanos e outras “mazelas” que não cabiam nos novos ideais que deveriam ganhar corpo com o imigrante branco, cristão, europeu, que – esse sim! – tinha gana de conquistar o seu espaço no novo mundo. Assim, tanto aqui como além da fronteira, os ideais republicanos caminharam lado a lado com o militarismo e estes, inevitavelmente, imprimiram no futebol as suas marcas.

Com as ditaduras militares nas décadas de 60 e 70 a coisa ganharia outros contornos. O futebol, alçado à condição de espetáculo midiatizado e de grande potencial econômico, foi determinantemente militarizado no Brasil. Confederações, federações e clubes, pavimentaram caminhos suaves para verdadeiras ditaduras da bola que se perpetuam até hoje, não somente nessas instituições, mas também no Congresso Nacional, nas Assembleias Legislativas e nas Prefeituras Brasil afora. É óbvio que não se trata de aplicar o mesmo modelo à Argentina, mas a conquista da Copa de 1978 – praticamente sob a ameaça dos rifles da ditadura e a gestão de Julio Grondona, presidente de AFA desde 1979 até agora – dão alguns indícios nada alentadores de que um processo similar se desenvolveu com nossos hermanos.

O que parece ser mais interessante disso tudo é que, em 2011, a tal Copa Roca volta à cena. ¿E volta como uma homenagem ao antigo militar republicano? Não. Volta como uma “nova roupagem”. O futebol globalizado neoliberal retirou dos campos do 3º mundo seus melhores jogadores (não contentes, retiraram os medianos e também os meninos – Messi foi com 12 anos para Barcelona – e até alguns fracos, restando aqui a “raspa do tacho” e mais alguns já rodados, que só mais recentemente voltaram para amealhar mais alguns milhares nesta época de prosperidade dos emergentes e crise mundial europeia) e deixou um vácuo que vem esvaziando as seleções nacionais. Ora, não se tornou mais possível conciliar os interesses de clubes, confederações, empresas, patrocinadores e torcedores para reunir os 18 ou 22 dos melhores jogadores nacionais e trazê-los da Europa para o Brasil ou outro país da América para fazer um ou dois amistosos. Isso explica porque os amistosos passaram a ocorrer na própria Europa, no norte da África, Oriente Médio, ou qualquer lugar de acesso relativamente fácil, mas quase nunca por aqui (as escusas dos dirigentes são impagáveis). E a reedição desta Copa Roca vem na tentativa de contra-argumentar este esvaziamento já latente nos torcedores: deram-nos uns jogos com jogadores que atuam nos times destes países, ainda sim com ingressos caros, em horários miseráveis em meio a todo forma de desmando; uma verdadeira caridade, que além de tudo prejudica os campeonatos nacionais, mantém o velho e eficiente esquema de convocações/valorizações/venda e expõe os jogadores ao cansaço de viagens e ao ridículo da última quarta-feira.

Disso tudo podemos depreender um aspecto interessante: não bastassem militares de patente que ocupam cargos relacionados à organização do futebol (Coronel Marinho, Tenente-Coronel Djalma Beltrami, e mais outros árbitros) assim como uma infinidade de cartolas dos quais o presidente da CBD (ex-ARENA) é só mais um exemplo, um modo de operação próprio da caserna ainda determina a organização autoritária do futebol brasileiro – como se aquela lógica conservadora de que um tirano resolve, resolvesse mesmo alguma coisa. Tal e qual durante as ditaduras das décadas de 60/70, estes atuais herdeiros diretos do autoritarismo cumprem à risca a determinação de atender prioritariamente aos interesses econômicos e perpetuar uma organização nefasta àqueles que vivem do esporte ou o admiram com a paixão torcedora. Reeditar a Copa Roca, como um “Superclássico das Américas”, é como celebrar no século XXI, a um só tempo, as desgraças produzidas na América pelo neoliberalismo e as chagas lambidas de um militarismo que, ao invés de investigado e passado a limpo (por que não uma Comissão da Verdade dos Esportes?) justamente por estes fatores se diluiu e multiplicou no tecido social, nas instituições desportivas, na grande imprensa, nos partidos políticos no pensamento isolado e imediatista do dia-a-dia. Assim como a ideia de revestir o militarismo com uma aparência mais aceitável, o que se viu no jogo que não ocorreu na quarta-feira foi bastante simbólico do atual estágio do futebol brasileiro: sob um cenário obscuro, engravatados trocavam informações de canto de boca, a imprensa dava à cobertura um ar de simpatia e, do outro lado, jogadores e torcedores ficaram sem compreender ou acreditar no que viam, mas ainda numa expectativa – cada vez menor – de ver um bom futebol.

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